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Algumas notas sobre o difícil papel do juiz


Raramente um juiz é elogiado. O comum é ser alvo de duras críticas, ainda que possa não merecê-las.


Sou um desses sujeitos, pois crítico regularmente o trabalho do juiz. No entanto, procuro fazê-lo a partir da observação concreta do desempenho do magistrado, em grande medida, verificada através da realização de serviços de transcrição jurídica, como também na colaboração em serviços de investigação.


Não é isso que ocorre regularmente na comunicação social. O julgamento público, além de não se apoiar na análise concreta, a mais das vezes não se apoia sequer em factos. Inflamam-se as acusações, constroem-se narrativas que captem a atenção do espetador.


E se o juiz, após os «factos» veiculados pelo julgamento público, vier a absolver os visados de uma ação criminal, por exemplo, torna-se uma persona non grata, alguém que favorece o crime e os criminosos. Um vendido. Um energúmeno.


É o estágio em que nos encontramos. E parece que ninguém se importa muito com isso.


É evidente que existem maus juízes. Tive a oportunidade de ver isso de perto nos últimos anos. E também a frustração (e revolta até) de advogados por consequência. Mas a generalidade dos juízes portugueses são bons juízes.


Se erram? Certamente que sim. Se cometem injustiças? Certamente que sim. Mas tentam dar o seu melhor.


Não é fácil ser juiz. E numa sociedade veloz como aquela em que vivemos, é cada vez mais difícil. Por isso, muitos acabam por não resistir às exigências da profissão.


Eis algumas ideias sobre o difícil papel do juiz, que tinha escrevinhado numa folha, e decidi transpor para este artigo:


Dirigir uma audiência de julgamento sem olvidar o essencial, mas não perder tempo no acessório;


Gerir as emoções de todos os envolvidos, desde logo as suas. Não é raro que os ânimos se exaltem entre mandatários e testemunhas/partes, ou mesmo entre os mandatários de cada parte;


Aceitar como válida qualquer uma das versões que as partes lhe apresentam, sem demonstrar qualquer inclinação decisória precipitadamente, portanto, no decurso das audiências de julgamento;


Ser capaz de ouvir verdadeiramente as alegações das partes e dos seus mandatários. Existe uma categoria de juízes, que costumo designar por «juiz-estrela», que não ouvem nada, nem ninguém;


Ser capaz de digerir montanhas de informação, sem perder o foco nos detalhes. E tantas vezes essa informação é trabalhada por equipas multidisciplinares das partes envolvidas no processo;


Ser capaz de gerir não apenas a pressão constante que resulta do exercício da profissão, mas também o impacto que as suas decisões causam na esfera de terceiros;


Ser capaz de lidar com a solidão da profissão, quiçá aprender em transformá-la em solitude com o tempo;


⚫ Ter coragem para enfrentar com firmeza as ameaças que lhe são dirigidas, a si e à sua família. Em Portugal é menos comum do que noutros países, mas é um fenómeno que também existe.


Sobre o papel do juiz na distinção da verdade versus mentira, que também seria um ponto de análise interessante, talvez valha encerrar o artigo com as palavras de Edson Haines, ex-presidente do STJ do Canadá:


«Law is not justice and a trial is not a scientific inquiry into truth. A trial is a resolution of a social dispute.»


LPM






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